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sábado, 19 de julho de 2014

CONTAR UMA HISTÓRIA...





Todos ainda riam da história de José quando Pedro interrompeu:
- Muito boa, José! Eu também tenho uma história engraçada pra contar!
- Mas você não pode anunciar que a história é engraçada, meu caro! - disse João.
- E porque não?
- Porque nos obriga a rir mesmo se for ruim! E se não rir, você fica ofendido. Acha que fizemos de sacanagem.
- Mas essa história é engraçada mesmo!
- Então somos obrigados a rir? E se não for? E, além do mais, você não pode dizer que é engraçada. Quem decide isso somos nós. Quando você fala que é engraçada, já lança em nós uma ponta de alegria que pode diminuir caso não seja engraçada, entendeu?
- Não, mas ela é boa...
- Quem decide somos nós! E se não for, não é pra fazer de vítima de novo, não, hein? Como sempre faz.
- Nisso, o João tem razão! Você sempre faz isso. Faz de vítima quando alguma coisa que você quer que dê certo, não dá. E a gente tem que ficar te consolando - disse Eduardo - Mas se quiser, conta!
- Tá bom, pessoal! Não vou fazer mais isso. Vou contar. A história começa mais ou mesmo assim...
- Tá vendo?! Tá fazendo de novo! - indagou João.
- Fazendo o que?
- Tá criando expectativa, como antes, quando disse que a história é engraçada! Você não pode dizer que é engraçada e não pode anunciar que vai contar. Uma coisa soa igual a outra. Você tem que contar e pronto! Simplesmente contar.
- Tá certo!

Tomas chega no bar.

- FALAAA, Tom, meu caro! Demorou, mas chegou numa boa hora - disse João se levantando - Saudade de ti, cara!
- Pois é! Engarrafamento sinistro. Cheio de polícia e blitz... Mas tá bom! O que tá pegando aqui?
- O Pedro vai contar uma história en-gra-ça-da, diz ele - contrapõe Eduardo.
- Mais uma, Pedro! Mas depois não vai se fazer de vitima, né? Igual da outra vez! Digo, se a piada não for boa - afirma Tom.
- Tá vendo! Não disse...
- Que é isso, gente?! Até parece complô contra mim!
- Começou...
- Tá bom! Deixa pra lá! Foi mal! Vou contar a história. Aconteceu comigo ontem. Tava eu, a Paty, Afonsinho...
- DÁ UMA LICENÇINHA AQUI, POR FAVOR: alguém pediu torresmo pra tira-gosto??? - anuncia o garçom com a bandeja na mão.
- Pedimos sim, Manolo! É daqui mesmo. Pode deixar aí.
- Tá com uma cara boa, hein?
- Dessa vez o Osvaldo caprichou.
- Caprichou mesmo! - disse Tom - Mas conta aí, João, do que vocês estavam rindo quando cheguei? Vi lá do carro!
- É uma história que o José estava contando. Muito engraçada! Rsss... Conta de novo, José, pro Tom escutar também.
- EI, EI, QUE É ISSO, GENTE?  - diz Pedro enfurecido - Até parece que não querem que eu conte a minha história. Querem que eu vá embora, pô?
- Ih, começou de novo!
- Vai fazer de vítima de novo!
- Qualquer dia desses, vai chorar aqui na mesa mesmo.
- Quer saber, vou embora. Deixa pra outro dia. É que realmente não estou bem esses dias.
- Mais uma vez... Vítima - assentiu Tom - Vai contar a história ou vai se fazer de vítima de novo? Você veio falar dos seus problemas ou o que?
- Nossa, parece que não posso falar nada!
- De novo!
- Olha, tchau! Outro dia eu conto. Ou não também. Tanto faz!
- Meu Deus, até pra ir embora!

E foi.

- Ei, João, o que será que o Pedro ia contar? Será que era engraçada mesmo? Agora fiquei curioso - disse Eduardo.
- É, também fiquei! Ele deixou a gente na mão. Talvez fosse uma história em que ele foi vítima, mas levou ferro! Essa sim seria uma história engraçada!

Todos ainda riam do comentário de João.

Marcelo Horta Mariano