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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O GENRO IDEAL


Eduardo amava Carol que amava Eduardo na mesma proporção. Mas para consolidar a relação dos dois seria necessário que Eduardo descesse de seu posto conveniente e conhecesse a família de Carol. O relacionamento deles não daria certo sem esse gesto bondoso de Eduardo uma vez que Carol era muito ligada à própria família, principalmente ao pai.
O pai de Carol era um senhor conservador e que gostava das coisas muito certas e em seu devido lugar. Não era adepto a excentricidades ou eloquência barata. Pelo contrário, era sistemático e obsessivo com as escolhas da filha.
Pelo lado de Eduardo, isso não era lá um problema já que era um rapaz simples, de bons princípios e boas idéias. Queria crescer e constituir família e nunca fôra de farras ou festas. O sonho de qualquer sogro. Mesmo assim Eduardo sabia que impressionar o velho não seria nada fácil e ele precisaria de um plano.
Os dias se passaram e o medo de Eduardo foi aumentando. Não tinha a menor idéia do que fazer e nem como impressionar o velho. Pra piorar, Carol passou a semana inteira falando da família, sem sequer dar uma pista pra ajudar. Eduardo não era ingênuo, nem nada, mas não sabia o que dizer pra eles que vieram do interior só para conhecê-lo. Qualquer coisa mal interpretada poderia colocar tudo a perder.
Certo dia, pouco antes deles chegarem, Eduardo teve uma idéia brilhante e se lembrou da torneira da casa de Carol que tinha um vazamento de água. Imaginou que se ele se colocasse a disposição pra resolver um problema de casa (ou chamar alguém pra fazer), todos teriam uma boa impressão. E aí depois ele poderia aproveitar o momento para falar de outras qualidades suas.
E o tempo passou rápido até que chegasse o dia marcado. Eduardo correu na casa do encanador e combinou o plano e o horário aproximado. Pediu a ele que desmarcasse todos os clientes e ficasse por sua conta. Receberia uma boa gratificação por isso.
Quando chegou na casa de Carol, Eduardo fez questão de cumprimentar sua mãe dando-lhe um beijo na mão como um distinto cavalheiro. Estava apresentável, bem vestido e com um perfume divino. Cumprimentou também os outros parentes e por fim o pai de sua digníssima. Eduardo estava nervoso e suava frio, como alguém prestes a tomar uma decisão que mudaria os rumos de sua vida.
E quando todos se sentaram à mesa, Eduardo ficou calado e pôs-se a saborear o vinho que trouxera, com um olho no copo e o outro na torneira. Era o momento de esperar até que alguém notasse o pinga-pinga da água na pia e ele pudesse se apresentar como um verdadeiro herói combatente do crime.
De repente, a mãe de Carol se levantou pra pegar um copo e deparou com o vazamento. Antes mesmo que ela pudesse dizer qualquer coisa, Eduardo deu um salto da cadeira e com um braço erguido disse que resolveria rapidamente aquele problema buscando um encanador que nunca lhe negaria um favor.
O pai de Carol vendo aquela cena toda também se levantou e disse que acompanharia Eduardo. Seria um ótimo motivo para que pudessem se conhecer mais e conversar algumas coisas de homens. Mas Eduardo não havia programado nada daquilo e a sua ansiedade aumentou tanto que achou que iria infartar naquele momento. *Logo o pai dela...*.
E os dois desceram as escadas do prédio sem trocar uma palavra; com Eduardo na frente, sem nem olhar pra trás. Ele descia rapidamente a escada, como alguém procurando socorro ou fugindo de um incêndio.
Quando chegaram no carro, Eduardo quis ser gentil e abriu a porta para o "futuro sogro". Em seguida entrou pelo lado do motorista e aguardou o tempo necessário para uma pessoa pudesse entrar num carro. Sem nem olhar para o lado (de tão nervoso), Eduardo acelerou e ouviu um barulho assustador do lado direito. O pai de Carol estava caído com uma perna dentro do carro e o rosto estatelado no chão. Sem saber o que fazer, Eduardo colocou as duas mãos na cabeça e viu o "sogro" se levantar aos gritos e correr em direção a casa da filha mancando. Eduardo permaneceu no carro sem acreditar no que acabava de ver. Carol não havia contado a ele que o pai era deficiente e que possuía uma perna mecânica.
Quando, enfim, conseguiu se recompor, Eduardo entrou na casa e viu o velho, com o rosto cheio de manchas de asfalto e sujo (parecia um mendigo). Estava com um braço erguido e o outro segurando a perna manca a gritar na porta de entrada: *É COM ESSE TRASTE QUE VOCÊ QUER CASAR? COM ESSA M... DE SER HUMANO? ISSO NÃO VALE B... NENHUMA, EU DIGO. NÃO VALE NADA! É UM VERDADEIRO FILHO DA P...! ESTÁ ESCUTANDO? NÃO APROVO PORCARIA DE CASAMENTO NENHUM E TENHO DITO... *.
E o discurso se prolongou por, aproximadamente, mais uma hora (era assim que Eduardo via o tempo passar). Estava de pé, atrás do velho e com as mãos no rosto com vontade de chorar.
***
Passaram-se anos até que o fato caísse no esquecimento (ou ficasse nos planos das coisas que não podem ser ditas em encontros de família).
Eduardo e Carol consolidaram o namoro e marcaram o casamento.
E no dia em que resolveram se juntar definitivamente para se unir pela graça de Deus, em um casamento que deixaria qualquer um encantado pelo requinte, o pai de Carol resolveu fazer uma coisa para facilitar a vida de todos e tornar a relação mais propícia ao sucesso: ele foi a festa, mas dirigindo o próprio carro!
E os "três" viveram felizes para sempre!

MLHSM

Um comentário:

  1. Pôxa... acho que quando a gente tenta impressionar alguém, acaba dando tudo errado mesmo. O melhor é ser o melhor que pudermos dentro daquilo que realmente somos.
    Ótima leitura!

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