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segunda-feira, 12 de maio de 2014

O MÉDICO E O MONSTRO



Encontrei uma amiga na rua que falou da sua mágoa com o filho pequeno e com o pediatra:

- “Eu precisava levar o Gabriel no médico! Precisava mesmo, sabe? E como o doutor Geraldo está com a gente deste que ele nasceu, levei lá pra fazer uns exames! Mas o Gabriel está com essa mania de cuspir, né? Cospe em todo mundo, em mim, nos coleguinhas, em todo mundo! Já teve até reclamação da escola!”.
- Mania de cuspir? – perguntei.
- “É, mania! Ele cospe até no pai dele! Já coloquei de castigo, sem brinquedo, sem passeio, sem nada! Mas não adianta! Ele cospe e depois ri, como se estivesse zombando! Mas aí levei no doutor Geraldo! Quando o médico começou a examinar ele, o Gabriel cuspiu na cara do médico, virou pra mim e ficou rindo! Eu falei pra ele: ‘Gabriel, meu filho, você não pode fazer isso, é feio demais, ninguém gosta disso, o que vão pensar de você’! Mas o médico ficou revoltado, sabe? Disse que eu precisava corrigi-lo, que aquilo era um absurdo, que no futuro sofreríamos as consequências e tudo mais! Fiquei morrendo de vergonha! Mas disse a ele: ‘Olha, doutor, já tentei de tudo, mas ele não para! Coloquei de castigo, bati, cortei passeios, tirei brinquedos, mas nada funciona’! O doutor Geraldo olhou pra mim com uma cara feia e disse que se continuasse dessa forma, um dia as coisas fugiriam do controle! Fiquei com mais vergonha ainda!”.
- E o que aconteceu?!
- “Bom, o exame continuou e, pouco depois, o Gabriel cuspiu mais uma vez na cara do médico! O médico olhou pra mim de novo e disse que era para o meu bem e lascou um cuspe na cara do Gabriel!”.
- Meu Deus?!
- “Sério!!! Pra você ver! Ninguém nunca tinha feito isso com ele! Nem os amiguinhos da escola! Confesso pra você que quase chorei! Fiquei imóvel, assustada, olhando a cara do médico, enquanto o Gabriel soluçava de susto! Queria voar no médico, mas não tive coragem! Enfim...! Cheguei em casa e contei pra minha irmã que ficou indignada! Falou que não toleraria aquilo e que iria denunciar o médico! Chamamos a polícia e tudo mais! Fizemos ocorrência e entramos na justiça contra ele!”.
- Nossa, que situação?!
- “O Gabriel ficou traumatizado naquele dia! Ficou muito assustado! Mas se a minha irmã não atina, teríamos deixado pra lá! Tínhamos realmente que fazer alguma coisa! Um médico não tem essa autoridade para cuspir na cara de uma criança! O Gabriel está em fase de desenvolvimento e não vai ser assim que ele vai aprender! O doutor Geraldo havia me dito que uma psicóloga, conhecida dele, tinha falado sobre isso, que precisamos fazer o que as crianças fazem, isto é, pra entrar no mundo delas, pra que elas entendam! Tudo bem, né, mas não dessa maneira! Imagina se eu cuspir em toda criança que cuspir em mim? Não dá! Foi uma situação chocante, traumatizante, pra mim e pro Gabriel!".
- Mas, afinal de contas, o Gabriel continua cuspindo?
- "Cuspir, cospe, mas em médico nunca mais!".

Marcelo Horta Mariano

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